Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

 

 

 

 

O João olhou-o atentamente. O doutor Martins saudou-os e como iam ser vizinhos, desejou que fossem grandes amigos, vaticinando que tudo iria correr bem. O irmão é que não gostara muito da companhia. Dissera-lhe logo:-Reparaste, como ele se baba? E é coxo! Coxo não é defeito, atalhou o João, e quanto à baba, de facto, não reparei, acrescentou. Reparara sim no cabelo muito lustroso e esticado para trás deixando ver uma testa larga, sinal de inteligência?, com duas enormes reentrâncias em cada um dos lados, por cima de uns olhos que piscavam a todo o momento por detrás de uns óculos pretos de aros muito grossos. Vestia de uma forma normal, embora as calças e o casaco apresentassem sinais de lustro abrilhantado pelo muito uso e por sucessivas passagens a ferro quente directamente sobre a fazenda, isto era cultura geral aprendida por observação da faina da avó Maria e por registo dos seus comentários.

Pouco passou para que o doutor Martins mostrasse de facto como era ilustrado e culto, e o seu nível de conhecimentos, e a forma fluida como falava e os transmitia, acabaram por fazer esquecer os aspectos negativos da primeira impressão.

O pior foram as noites que se seguiram. O velho Martins, como lhe começaram a chamar, sofria de um mal esquisito, uma doença que o João e o Rui nunca conseguiram entender bem. Ouviram falar, uma vez, num nome estranho, qualquer coisa como esquisitofrenia ou esquizofrenia. O certo é que, noite após noite, o senhor Martins se levantava altas horas da madrugada a caminho da casa de banho. O João acordava sobressaltado, despertava o irmão e punham-se tensos à escuta. Primeiro ouviam o ruído típico de um chuveiro a correr, para logo de seguida um grito rasgar o silêncio da noite: uuuaaah!

Tentaram muitas vezes encontrar a explicação do fenómeno, mas quando procuravam falar com o senhor Martins, nem conseguiam imitar o tal grito para a explicação ser mais convincente, embora lhe tivessem chegado a dizer que parecia que alguém lhe tinha acabado de espetar um punhal nas costas enquanto dormia, nem o senhor Martins se lembrava de qualquer coisa, quanto mais de um imaginário punhal, ele, que nem sequer se lembrava de caminhar, respiração ofegante, tropeçando nas camas dos rapazes. Se nem sequer se lembrava do banho de água gelada, muito menos se lembraria do grito!

O susto e o medo iniciais deram, pouco a pouco, lugar à indiferença, e depois à brincadeira com o velho Martins acabando no corte de relações, quando o doutor escreveu uma carta indignada à directora responsabilizando-a pela falta de educação e pela língua afiada e sem pudor dos seus alunos, já que, por acaso, dois deles coabitavam por ironia do destino e azar seu o mesmo tecto, salvo sejam o pleonasmo e a falta de rigor, pois se coabitavam, coabitavam, e não era preciso dizer mais nada, e quanto ao tecto, não era bem o mesmo, mas bocados contíguos.
Numa coisa estavam o João, o Rui e o doutor Martins de acordo: felizmente que a estadia em Olhão estava a chegar ao fim!

E chegar ao fim, sem cumprir um velho desejo, era coisa que atormentava o Rui, não se cansando de repetir:-É pá, eu já tenho catorze anos e tu já tens treze. O Barrote, que é da tua idade, já foi bater à porta delas. Tu és um grande maricas se amanhã não fores comigo. Eu vou, vais ver se não vou, bater-lhes à porta, e depois entro, vais ver se não entro!

O João lá foi, atrás, agora que se aproximava o regresso a Castro Marim e logo de seguida a partida para São Brás de Alportel, bater à porta de um certo número de uma certa casa perto da estação de caminho de ferro. Chegados ao local, perto das dez da noite, o João, mais desejoso de estar no quente do quarto da pensão que no frio da rua, disse com o ar de quem não queria ser desmancha-prazeres:-Vai tu, que eu fico de guarda! Passo a passo, com uma nota de vinte escudos dobrada em quatro no interior da mão nervosa, o Rui aproximou-se da porta castanha, hesitou, olhou em redor, hesitou de novo, e, finalmente, ouviu-se: toc toc toc. A porta abriu-se ligeiramente, após algum tempo de espera, uma eternidade, que o João aproveitou para se aproximar de forma a que pudesse ouvir o diálogo, pela frincha de luz espreitou um rosto, mirou o fedelho, olhou-o de cima a baixo, despiu-o com o olhar e disparou:-E se fosses para casa e pedisses à tua mãe para te mudar os cueiros?

publicado por jose murta lourenço às 10:58
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