
A estação de Santa Apolónia é um átomo em super excitação, gente que corre para as bilheteiras, há sempre os atrasados que tudo deixam para o fim, gente que corre arrastando malas, nervosa, impaciente, ainda mais pelas ameaças constantes da partida iminente a toda hora anunciada na instalação sonora, outros há, mais previdentes ou mais pacientes, que dirão que as horas nunca mais passam, sorvendo um café atrás de outro café, no bar, excrescência ou sala de repouso das gentes que se cansam ou se hão-de cansar no cais. O comboio Foguete, esse repousa, nem arfa, é eléctrico, se fosse puxado por locomotiva a diesel ou a carvão, em tempos foi assim, ainda não se chamava pomposamente de Foguete, estremeceria, soluçaria ao ritmo dos êmbolos e pistões presos, ansiosos por galopar na planície de trilhos. Ali está ele, quase uma dezena de carruagens, entre as de primeira classe, as de segunda, o vagão restaurante e a máquina de tracção, impaciente pela próxima partida. A viagem reiniciar-se-á, rumo ao Porto, às dez e trinta, mais coisa menos coisa, dez e vinte e cinco lê-se no anúncio informativo das partidas, do dia, aquele, presente no cabeçalho do jornal pendurado no quiosque perto da entrada, dois de Julho, à distância não se consegue ler o ano, com paragens em algumas estações principais, entre elas Vila Franca de Xira, Entroncamento e Coimbra B, até à estação da Campanhã.
João, João Ventura, fora o primeiro a entrar no compartimento de primeira classe situado na penúltima das carruagens. Entrara sorrindo, gesticulando, cantarolando em voz alta.
Logo de seguida, entrara Daniel Graça, ainda a tempo de continuar a canção ouvida, pensará ele, que graça, este vai para o mesmo destino que o meu. Artur Fontes fora o terceiro a chegar. Rematara a Trova do vento que passa, pensou, estes vão para Coimbra, seremos companheiros até lá.
O quarto passageiro a tomar lugar naquele compartimento, que mais tarde dirá chamar-se de Manuel Pataco, parecia vir desconfiado, olhava para todos os lados, de soslaio, talvez buscasse com os olhos a sombra que o perseguia.
O quinto passageiro, que por pouco não pisava os calcanhares do Pataco, o Jorge Serra, ou Bicho da Serra, como diria mais tarde, gosto que me chamem assim, entrara sorrindo com as persianas todas abertas, isto é, com um sorriso de orelha a orelha.
Francisco Soromenho entrara de seguida. Sentara-se no lugar junto ao corredor, ao lado do Manuel Pataco, com o tempo soube que ele se chamava assim, para tudo na vida é preciso dar tempo ao tempo.
O comboio estava prestes a partir, soara um silvo estridente, as portas ainda se não tinham fechado e os milhares de toneladas do monstro de aço, vidro e alumínio mal se haviam movido quando um último passageiro, o sétimo, ainda acabara de entrar no compartimento. Ocupara o único lugar vazio, no canto junto ao corredor, frente ao Francisco Soromenho. Era um homem normal, usava um cabelo não muito curto mas discretamente penteado, sentara-se, e , de imediato, se pusera a observar silenciosamente cada um dos outros, fê-lo tão penetrantemente que era impossível que não estivesse a tentar adivinhar o que se ia passando na mente e na alma de cada um. Seguiram-se uns minutos de silêncio, daqueles que sendo minutos parecem séculos, outros há que sendo séculos parecem minutos, a relatividade do tempo, que não existe apenas como tempo, existe num contexto, o tudo que não é tempo, tão ou mais importante do que ele porque o reduz ao instante ou prolonga-o até quase à eternidade, a medida do tempo depende do contexto, disse um filósofo, se não disse poderia ter dito, subitamente, quem havia de ser, só podia ser o Jorge Bicho da Serra, dirige-se a todos, e também a ele mesmo, o Bicho é daqueles que por falar tão alto se torna impossível que não se ouça, tanto mais por ele, com umas orelhas daquele tamanho, e falou:-Já que estamos a viajar juntos porque não falamos de nós e dos acontecimentos mais marcantes das nossas vidas?; não, não é o que estão pensando, os aspectos pessoais, mais íntimos, mais privados, não interessam; interessa sobretudo o contexto, muito mais que o tempo ou o lugar…
Acto contínuo, e antes que o outro acabasse a sua divagação, já o João Ventura, com um sorriso de ventura, como ele gostava de falar de contextos, começava e embalava por aí fora:-O meu sonho é jogar na Académica…
Jorge interrompeu-o. Aliás era frequente o Jorge Bicho da Serra interromper toda a gente, mas, desta vez, tinha razão. Primeiro temos de acordar um critério, disse, embora a palavra critério, sinónimo de método, de organização, destoasse da sua figura. Mas todos concordaram, havia que acordar um critério. Começariam pela ordem de chegada. Todos concordaram, menos o sétimo, o último a entrar. Este ficou impassível, mas o seu rosto aparentando bonomia crispara-se levemente, e os seus olhos ganharam um estranho brilho, frio, até mesmo cruel. Não disse nada, não tugiu, nem mugiu.
Uma a uma sucederam-se diversas estações e apeadeiros, Faro, Beja, Alvito, Castro Verde, Castro Marim, Olhão, Vila Real de Santo António, São Brás de Alportel, raio de comboio, que para ir de Lisboa ao Porto anda por aí à deriva!, uma voz, parecia querer justificar o anteriormente dito, sai do altifalante colocado no tejadilho da carruagem para dizer, é feminina a voz:-Mantenham-se calmos, uma avaria danificou o computador de bordo. O nosso comboio desloca-se a uma velocidade moderada de cruzeiro, mas, de momento, desconhece-se ainda o seu destino.
João Ventura respirou de alívio. Teria mais tempo para completar toda a sua história. Falou durante horas. De vez em quando parava, recuperava o fôlego e continuava, sempre com o mesmo entusiasmo. Quando chegou ao fim, deixou suspensos no ar, o sorriso e o brilho alegre do seu olhar.