Segunda-feira, 06 de Fevereiro de 2012

 

 

 

O sol em dia de mudança é sempre diferente. O Natal estava mesmo a chegar. Havia muito frio mas o astro-rei espreitava amiúde por entre uma espessa neblina que ora se formava ou desaparecia. Parecia que os seus raios se agitavam inquietos, como inquietos estavam todos na casa de Castro Marim, já vazia, aguardando a partida iminente. O João olhava em redor para registar tudo e para que um dia mais tarde, quem sabe, o pudesse descrever. O Rui pontapeava uma pedra na esperança de a enfiar, à primeira, na sarjeta do outro lado da rua. A mãe andava às voltas à procura do rumo e o pai conversava com o motorista sobre alguns detalhes da mudança. A avó chorava pelo frio que iria sentir. Duas horas depois, o João e o irmão entravam receosos no Largo de Bernardo de Passos, por entre o olhar curioso de quem estava na rua. O João, de mãos nos bolsos, parara entretanto no centro do largo. Deu uma cotovelada no Rui e leu:

Eu amo o meu país embora sobre a terra

Em cada homem eu veja apenas um irmão

Nós somos como a esteva ou a urze da serra

Que só floresce bem no seu dorido chão.

 

 

 

 

 

Olhou em frente, na direcção dos montes das Almargens e secou duas pequenas lágrimas pelo que acabara de ler e que interpretara como sendo as boas-vindas que alguém ilustre de São Brás lhes havia acabado de dar.

 

…NÓS SOMOS COMO A ESTEVA OU A URZE DA SERRA….Imóvel, no seu pedestal, rodeado de buxos, ali estava, de novo, Bernardo de Passos, declamando para quem o quisesse ouvir, olhos fitos no poente a caminho do cemitério de São Brás.

Uma velha carrinha transportava a urna. A avó Maria já não ouviria Bernardo de Passos afirmar o que afirmou, senão diria que sim no seu jeito leve de abanar a cabeça, e em sinal de acordo, remataria:-Tudo tem o seu tempo: a esteva, a urze da serra, o senhor poeta Bernardo, e esta pobre e humilde criatura que sou eu, Maria, mais concretamente, Maria de Jesus Gonçalves, Maria gasta, Maria cansada, Maria presa de recordações, Maria do Algarve, Maria da Argentina, Maria de São Simão de São Paulo do Brasil, Maria a quem morrer não assusta mas que para morrer só tinha um desejo: voltar às raízes, à terra dos meus pais, de meus avós, bisavós, trisavós, tetravós, e aí por diante até à escuridão dos séculos passados.

publicado por jose murta lourenço às 11:28
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Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

 

 

A estação de Santa Apolónia é um átomo em super excitação, gente que corre para as bilheteiras, há sempre os atrasados que tudo deixam para o fim, gente que corre arrastando malas, nervosa, impaciente, ainda mais pelas ameaças constantes da partida iminente a toda hora anunciada na instalação sonora, outros há, mais previdentes ou mais pacientes, que dirão que as horas nunca mais passam, sorvendo um café atrás de outro café, no bar, excrescência ou sala de repouso das gentes que se cansam ou se hão-de cansar no cais. O comboio Foguete, esse repousa, nem arfa, é eléctrico, se fosse puxado por locomotiva a diesel ou a carvão, em tempos foi assim, ainda não se chamava pomposamente de Foguete, estremeceria, soluçaria ao ritmo dos êmbolos e pistões presos, ansiosos por galopar na planície de trilhos. Ali está ele, quase uma dezena de carruagens, entre as de primeira classe, as de segunda, o vagão restaurante e a máquina de tracção, impaciente pela próxima partida. A viagem reiniciar-se-á, rumo ao Porto, às dez e trinta, mais coisa menos coisa, dez e vinte e cinco lê-se no anúncio informativo das partidas, do dia, aquele, presente no cabeçalho do jornal pendurado no quiosque perto da entrada, dois de Julho, à distância não se consegue ler o ano, com paragens em algumas estações principais, entre elas Vila Franca de Xira, Entroncamento e Coimbra B, até à estação da Campanhã.

João, João Ventura, fora o primeiro a entrar no compartimento de primeira classe situado na penúltima das carruagens. Entrara sorrindo, gesticulando, cantarolando em voz alta.

Logo de seguida, entrara Daniel Graça, ainda a tempo de continuar a canção ouvida, pensará ele, que graça, este vai para o mesmo destino que o meu. Artur Fontes fora o terceiro a chegar. Rematara a Trova do vento que passa, pensou, estes vão para Coimbra, seremos companheiros até lá.

O quarto passageiro a tomar lugar naquele compartimento, que mais tarde dirá chamar-se de Manuel Pataco, parecia vir desconfiado, olhava para todos os lados, de soslaio, talvez buscasse com os olhos a sombra que o perseguia.

O quinto passageiro, que por pouco não pisava os calcanhares do Pataco, o Jorge Serra, ou Bicho da Serra, como diria mais tarde, gosto que me chamem assim, entrara sorrindo com as persianas todas abertas, isto é, com um sorriso de orelha a orelha.

Francisco Soromenho entrara de seguida. Sentara-se no lugar junto ao corredor, ao lado do Manuel Pataco, com o tempo soube que ele se chamava assim, para tudo na vida é preciso dar tempo ao tempo.

O comboio estava prestes a partir, soara um silvo estridente, as portas ainda se não tinham fechado e os milhares de toneladas do monstro de aço, vidro e alumínio mal se haviam movido quando um último passageiro, o sétimo, ainda acabara de entrar no compartimento. Ocupara o único lugar vazio, no canto junto ao corredor, frente ao Francisco Soromenho. Era um homem normal, usava um cabelo não muito curto mas discretamente penteado, sentara-se, e , de imediato, se pusera a observar silenciosamente cada um dos outros, fê-lo tão penetrantemente que era impossível que não estivesse a tentar adivinhar o que se ia passando na mente e na alma de cada um. Seguiram-se uns minutos de silêncio, daqueles que sendo minutos parecem séculos, outros há que sendo séculos parecem minutos, a relatividade do tempo, que não existe apenas como tempo, existe num contexto, o tudo que não é tempo, tão ou mais importante do que ele porque o reduz ao instante ou prolonga-o até quase à eternidade, a medida do tempo depende do contexto, disse um filósofo, se não disse poderia ter dito, subitamente, quem havia de ser, só podia ser o Jorge Bicho da Serra, dirige-se a todos, e também a ele mesmo, o Bicho é daqueles que por falar tão alto se torna impossível que não se ouça, tanto mais por ele, com umas orelhas daquele tamanho, e falou:-Já que estamos a viajar juntos porque não falamos de nós e dos acontecimentos mais marcantes das nossas vidas?; não, não é o que estão pensando, os aspectos pessoais, mais íntimos, mais privados, não interessam; interessa sobretudo o contexto, muito mais que o tempo ou o lugar…

Acto contínuo, e antes que o outro acabasse a sua divagação, já o João Ventura, com um sorriso de ventura, como ele gostava de falar de contextos, começava e embalava por aí fora:-O meu sonho é jogar na Académica…

Jorge interrompeu-o. Aliás era frequente o Jorge Bicho da Serra interromper toda a gente, mas, desta vez, tinha razão. Primeiro temos de acordar um critério, disse, embora a palavra critério, sinónimo de método, de organização, destoasse da sua figura. Mas todos concordaram, havia que acordar um critério. Começariam pela ordem de chegada. Todos concordaram, menos o sétimo, o último a entrar. Este ficou impassível, mas o seu rosto aparentando bonomia crispara-se levemente, e os seus olhos ganharam um estranho brilho, frio, até mesmo cruel. Não disse nada, não tugiu, nem mugiu.

Uma a uma sucederam-se diversas estações e apeadeiros, Faro, Beja, Alvito, Castro Verde, Castro Marim, Olhão, Vila Real de Santo António, São Brás de Alportel, raio de comboio, que para ir de Lisboa ao Porto anda por aí à deriva!, uma voz, parecia querer justificar o anteriormente dito, sai do altifalante colocado no tejadilho da carruagem para dizer, é feminina a voz:-Mantenham-se calmos, uma avaria danificou o computador de bordo. O nosso comboio desloca-se a uma velocidade moderada de cruzeiro, mas, de momento, desconhece-se ainda o seu destino.

João Ventura respirou de alívio. Teria mais tempo para completar toda a sua história. Falou durante horas. De vez em quando parava, recuperava o fôlego e continuava, sempre com o mesmo entusiasmo. Quando chegou ao fim, deixou suspensos no ar, o sorriso e o brilho alegre do seu olhar.

publicado por jose murta lourenço às 11:17
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Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

 

 

 

 

O João olhou-o atentamente. O doutor Martins saudou-os e como iam ser vizinhos, desejou que fossem grandes amigos, vaticinando que tudo iria correr bem. O irmão é que não gostara muito da companhia. Dissera-lhe logo:-Reparaste, como ele se baba? E é coxo! Coxo não é defeito, atalhou o João, e quanto à baba, de facto, não reparei, acrescentou. Reparara sim no cabelo muito lustroso e esticado para trás deixando ver uma testa larga, sinal de inteligência?, com duas enormes reentrâncias em cada um dos lados, por cima de uns olhos que piscavam a todo o momento por detrás de uns óculos pretos de aros muito grossos. Vestia de uma forma normal, embora as calças e o casaco apresentassem sinais de lustro abrilhantado pelo muito uso e por sucessivas passagens a ferro quente directamente sobre a fazenda, isto era cultura geral aprendida por observação da faina da avó Maria e por registo dos seus comentários.

Pouco passou para que o doutor Martins mostrasse de facto como era ilustrado e culto, e o seu nível de conhecimentos, e a forma fluida como falava e os transmitia, acabaram por fazer esquecer os aspectos negativos da primeira impressão.

O pior foram as noites que se seguiram. O velho Martins, como lhe começaram a chamar, sofria de um mal esquisito, uma doença que o João e o Rui nunca conseguiram entender bem. Ouviram falar, uma vez, num nome estranho, qualquer coisa como esquisitofrenia ou esquizofrenia. O certo é que, noite após noite, o senhor Martins se levantava altas horas da madrugada a caminho da casa de banho. O João acordava sobressaltado, despertava o irmão e punham-se tensos à escuta. Primeiro ouviam o ruído típico de um chuveiro a correr, para logo de seguida um grito rasgar o silêncio da noite: uuuaaah!

Tentaram muitas vezes encontrar a explicação do fenómeno, mas quando procuravam falar com o senhor Martins, nem conseguiam imitar o tal grito para a explicação ser mais convincente, embora lhe tivessem chegado a dizer que parecia que alguém lhe tinha acabado de espetar um punhal nas costas enquanto dormia, nem o senhor Martins se lembrava de qualquer coisa, quanto mais de um imaginário punhal, ele, que nem sequer se lembrava de caminhar, respiração ofegante, tropeçando nas camas dos rapazes. Se nem sequer se lembrava do banho de água gelada, muito menos se lembraria do grito!

O susto e o medo iniciais deram, pouco a pouco, lugar à indiferença, e depois à brincadeira com o velho Martins acabando no corte de relações, quando o doutor escreveu uma carta indignada à directora responsabilizando-a pela falta de educação e pela língua afiada e sem pudor dos seus alunos, já que, por acaso, dois deles coabitavam por ironia do destino e azar seu o mesmo tecto, salvo sejam o pleonasmo e a falta de rigor, pois se coabitavam, coabitavam, e não era preciso dizer mais nada, e quanto ao tecto, não era bem o mesmo, mas bocados contíguos.
Numa coisa estavam o João, o Rui e o doutor Martins de acordo: felizmente que a estadia em Olhão estava a chegar ao fim!

E chegar ao fim, sem cumprir um velho desejo, era coisa que atormentava o Rui, não se cansando de repetir:-É pá, eu já tenho catorze anos e tu já tens treze. O Barrote, que é da tua idade, já foi bater à porta delas. Tu és um grande maricas se amanhã não fores comigo. Eu vou, vais ver se não vou, bater-lhes à porta, e depois entro, vais ver se não entro!

O João lá foi, atrás, agora que se aproximava o regresso a Castro Marim e logo de seguida a partida para São Brás de Alportel, bater à porta de um certo número de uma certa casa perto da estação de caminho de ferro. Chegados ao local, perto das dez da noite, o João, mais desejoso de estar no quente do quarto da pensão que no frio da rua, disse com o ar de quem não queria ser desmancha-prazeres:-Vai tu, que eu fico de guarda! Passo a passo, com uma nota de vinte escudos dobrada em quatro no interior da mão nervosa, o Rui aproximou-se da porta castanha, hesitou, olhou em redor, hesitou de novo, e, finalmente, ouviu-se: toc toc toc. A porta abriu-se ligeiramente, após algum tempo de espera, uma eternidade, que o João aproveitou para se aproximar de forma a que pudesse ouvir o diálogo, pela frincha de luz espreitou um rosto, mirou o fedelho, olhou-o de cima a baixo, despiu-o com o olhar e disparou:-E se fosses para casa e pedisses à tua mãe para te mudar os cueiros?

publicado por jose murta lourenço às 10:58
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Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012

 

O Arsénio era mesmo um brincalhão. Aproximava-se a alta velocidade na sua mota, vindo de Vila Real. João não se apercebera da sua aproximação, e para aumentar o efeito da surpresa o amigo resolveu fazer-lhe uma tangente antes da paragem brusca, guinchando os
travões. A tangente, contudo, transformou-se em secante por força dos guarda-pernas esquecidos pelo Arsénio no cálculo da trajectória. O embate foi tão violento que o João fez uma pirueta no ar antes de se estatelar no chão batendo com a cabeça de raspão no marco onde antes repousava o pé. Assustaram-se as enguias no rio próximo, as minhocas no lamaçal, os pássaros nas ramadas e assustou-se o João quando acordou deitado na cama da Mané, com a mãe da amiga a acariciar-lhe ternamente a testa, enquanto lhe punha uma toalha fria sobre o galo, à espera que o mesmo recolhesse à capoeira. Uma vizinha da mãe, que assistira à cena da queda, correu a contar que o João havia morrido na curva do cemitério, como se isto fosse sítio para morrer, num acidente de bicicleta. A mãe, que estava por acaso em casa como mandam as regras dos atestados médicos, deixou tudo, esqueceu a doença que tinha ou que não tinha, e num vale de lágrimas e num monte, melhor dizendo, numa montanha de gritos lancinantes, voou no seu corpo pesado a caminho do local da tragédia.

Encontraram-se, mãe e filho ressuscitado, a meio da encosta da igreja. Ela, mudando bruscamente a expressão de tragédia para a de doce e suave visão, depois para a da euforia breve que precede o castigo. O João, para a de alívio pela tranquilidade da mãe, logo seguida da expressão de defesa porque por experiência sabia ser o castigo o remédio mais eficaz e mais rápido para o desabafo de um drama que podia ter acontecido.

Isso ficaria para depois. Agora João seguia sorridente como sempre, orgulhoso do seu feito, como soldado regressando da frente de batalha, toda a gente abrindo alas para o ver passar, cumprimentando-o, ora viva foi
por pouco, desta safaste-te, que sorte, e ele, lá foi, passo certo, quadro da bicicleta enfiado ao pescoço como se fosse um cachecol para o barbeiro ou a coroa de louros da vitória. À frente e atrás, como pratos de balança em equilíbrio, duas rodas esquecidas da forma circular contorciam-se num doloroso oito meditando sobre o seu futuro: regressariam à forma original e voltariam a palmilhar as estradas, ou acabariam num monte de sucata no cemitério de latas e velharias?

A mãe disse logo:-Acabou-se a bicicleta! E assim começou a epopeia do coche e da camioneta de carreira. O coche era o preferido do João. Sentir-se-ia até um fidalgo, um fidalgo conduzido por aquele carro de cocheiro vestido a rigor, não fosse o cheiro a peixe da maioria dos passageiros, as mulheres que iam vender à praça de Vila Real, e que pelo cheiro não eram realmente as personagens adequadas ao papel de damas da corte. Mas a camioneta tinha outros atractivos. E, um deles, chamava-se Felicidade.

A Felicidade enamorara-se do João. Dissera-lhe uma vez que tinha sido por causa de uma fotografia do João de gravata que estivera muito tempo exposta na montra da Fotografia Havanesa. O João pensava, no entanto, que a Felicidade dizia gostar dele porque a Raquel também gostava. Mas começaram a viajar juntos, lado a lado, de mãos dadas escondidas sob as pastas colocadas propositadamente nos respectivos regaços. Um dia seguiram até perto da casa da Felicidade. Era noite, a escuridão já havia assentado arraiais, embora pouco passasse das seis da tarde. Perto de casa, a Felicidade puxou-o bruscamente, e sem que o João suspeitasse sequer o que ia acontecer, sentiu-lhe os lábios esmagados
contra os seus. Viu estrelas. Tudo era escuro mas doce à sua volta. Regressou maquinalmente a casa. Não respondeu quando a avó e a mãe estranharam o silêncio. Não comeu. Deitou-se vestido sobre a cama e aspirou vezes sem conta o ar sentindo por todo o lado o cheiro inebriante da felicidade.

O doce idílio terminou uns meses depois, quando o João, esquecido de que não poderia fazer duas vezes anos num ano, lhe disse:-Amanhã faço anos! Ela olhou-o surpreendida e respondeu:-Desiludiste-me. Disseste que tinhas treze anos e só tinhas doze. Mentiste e eu não suporto mentiras! A Felicidade é assim, avessa a mentiras, mesmo que sejam, conforme foi o caso, irrisórias e inócuas.

Os episódios da Raquel e da Felicidade abalaram o João e a sua relação com Castro Marim. Desejava mudar de ares, sair do vale entalado entre o forte e o castelo, ir para outra terra, conhecer novos amigos, reiniciar uma vida nova. O destino, uma vez mais, ia fazer-lhe a vontade.

O prenúncio da nova vida começou, quando a mãe, depois de uma curta estadia em Vila Real a fim de completar o ano escolar, anunciou que no primeiro período do próximo ano lectivo, os filhos iriam sozinhos para Olhão, estudando no colégio, e residiriam num quarto alugado na pensão do tio José. Seria por pouco tempo, já que o pai iria ser colocado em São Brás de Alportel.

O projecto entusiasmara o João, que esquecido dos primeiros desgostos de amor se entregou totalmente às novas aventuras de Vila Real de Santo António na companhia do Júlio, filho de um armador de barcos de pesca, entretanto tornado o seu maior amigo. O João e o Júlio especializaram-se no lançamento de naves espaciais. Uma pedra de acetileno comprada na drogaria era colocada numa cova do chão, e dentro desta, uma lata. Regada a pedra com água, libertavam-se vapores acompanhados de um cheiro intenso a pólvora. Os cientistas acendiam um pequeno fósforo. A lata, após uma violenta explosão, subia na vertical até alguns metros de altura. Daí até à exploração espacial do invento foi um pequeno passo. No céu de Vila Real, começaram a subir pequenas naves de arame e papel celofane, e astronautas com a forma de grilos caçados pelas mãos hábeis do Júlio. Nenhum dos grilos sobreviveu à experiência, uns porque a carlinga era demasiado frágil e a combustão demasiado intensa, outros porque a queda do espaço era grande de mais, e outros ainda, possivelmente, apenas por susto, já que nenhum dos astronautas era submetido a exames médicos antes da aventura espacial.

O João e o Rui riam com grande estrépito enquanto recordavam os últimos episódios vividos em Vila Real. Dentro em pouco estavam junto à igreja de Olhão onde no largo contíguo desciam da camioneta da carreira que os havia trazido desde perto do Guadiana até à vila da Restauração. Um empregado do tio esperava-os. Tiraram as malas e puseram-se a caminho dos seus novos aposentos.

A pensão situava-se numa rua estreita não muito distante do centro, a meio caminho entre a doca e o jardim. Era um edifício antigo mas bem conservado com o exterior completamente forrado a pequenos rectângulos de azulejo verde. O João gostou logo da amplitude do
espaço que lhes havia sido reservado. Achou estranho, contudo, existir ao fundo do quarto uma outra porta e perguntou:-Que porta é esta? O tio respondeu naturalmente:-É a porta do quarto do doutor Martins, uma óptima pessoa, muito culto e ilustrado e de quem vocês vão gostar. E acrescentou que era um barra no francês, podendo até ajudá-los a tirar dúvidas e a fazer as composições. Por coincidência, ao ruído irregular de passos subindo a escadaria, sucedeu mesmo a figura do dito doutor Martins.

publicado por jose murta lourenço às 18:03
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Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

 

 

 

 

O Externato era uma construção baixa mas ampla, e o João adorava, sobretudo, os seus arredores. Quase que ficava dentro de um pinhal, situando-se à sua beira a estrada do farol, que espreitava ao fundo na estrada entre Vila Real e Monte Gordo. João residia então em Castro Marim. Começara por vir para Vila Real de bicicleta, mas a distância, sendo curta, era excessiva para a sua idade.
Os oito quilómetros diários eram percorridos, por vezes, sob chuva intensa, e o pior eram os dias de barbeiro, o vento de leste, que vindo de Espanha gelava e cortava as mãos e o nariz. A pouco e pouco, o João substituiu a bicicleta pelo coche, e este pela camioneta da carreira. Especialmente após o acidente ocorrido entre a velha ponte e o cemitério, mesmo na curva onde a Mané, filha do engenheiro responsável pela obra da ponte nova, passava horas a fio na conversa com o João e o Arsénio. Estava uma manhã de céu azul e límpido e João viera mais cedo de Vila Real.

Ali mesmo, a seguir à velha ponte sobre o rio de Castro Marim, João pôs-se a conversar com a Mané. Poderia ter começado, como é normal quando se quer dizer qualquer coisa e não se sabe o quê, por: está um lindo dia, está sol, está fresco. Mas não. O João não perdia uma oportunidade para contar uma história e, a partir de um facto tão elementar como ter percorrido cem metros de bicicleta entre a ponte do rio e a curva da Mané, pôr-se a divagar por veredas e atalhos, até que, quando o interlocutor do monólogo julgasse ter-se ele perdido na divagação, juntasse os atalhos, às vezes com atilhos, e rematasse a história num final feliz, onde invariavelmente ele era o herói assumido, mesmo se, como no caso presente, não existisse nenhuma heroicidade na pesca da enguia.

Contava o João: um dia, quis fazer como os outros rapazes de Castro Marim e fui dar banho à minhoca. Calcei umas botas altas de borracha para me atascar à vontade na lama do rio, e ali, com a minha cana de pesca, esperei. O João fizera uma pausa. Talvez se interrogasse sobre se seria mentira ou omissão o que dissera da cana de pesca, porque a cana era cana, mas de pesca, nem tanto. A realidade é que o João, em dia que não era de cana verde, fora a um canavial, cortara uma cana flexível e rija, fixara-lhe um velho carreto de máquina de escrever, enrolara neste uns metros de linha de nylon e na ponta do fio quase transparente atara um anzol retirado uns dias antes do papo de um besugo pela avó Maria. Mas, desde quando é que o sonho e a imaginação não são parte integrante da realidade? Para o João, essa questão nem se põe, pelo que a mentira nem sempre é mentira e a omissão só é omissão para quem não quer ver o que se não vê mas se poderia ver.

Voltou o João à minhoca. Essa era a parte menos agradável. Obrigar o bicho a engolir aquele bocado de metal dobrado em ponto de interrogação invertido e acerado na ponta, era tarefa que lhe causava não apenas nojo, mas sobretudo, comiseração pelo pobre bicho. Anda aqui uma minhoca a rastejar descansada da vida, e um dia, sem que se possa defender, umas mãos, só porque são mais fortes, agarram-na e adeus minhoca, pensava ele, e pensaria a minhoca. E para quê, continuava. Depois de tanta espera, a linha entesou-se, e o João, na expectativa da primeira apanha, esqueceu a minhoca. Lentamente, enrolou o fio no pequeno tambor preto. Restavam dois metros de linha submersos ainda na água barrenta do rio quando João a viu. Parecia uma pequena cobra dourada e dançava por entre as gotinhas de água que o endiabrado movimento da bicha levantava da superfície do rio. Um pouco mais e a linha repousava agora quase toda enrolada no carreto. A mão esquerda do João posicionou-se para a captura, os dedos, quatro de um lado; um só, o polegar, do outro, como se fosse agarrar o canário, cuidadosamente, para não esborrachar o cantor. A enguia ensaiava uma frenética dança. O João, com os olhos, tentava hipnotizá-la para lhe tirar o anzol, que outro custaria o dinheiro que não tinha, e nem sempre nascem anzóis em papos de besugo. Cuidadosamente, aí está, chap, ouviu-se, e a enguia subiu ao céu, verticalmente, curvou a dois metros do nariz atónito do pescador, inverteu o rumo, fez-se prego e glup, desapareceu no rio.

Esta foi a história da minha primeira pescaria, e também da última, e da minha minhoca, que vejam bem, ainda se desatou a rir, a atrevida, disse à Mané, e ainda esta não abrira a boca e já o João se pusera a divagar sobre o rio de Castro Marim que não se sabe se é rio que nasce numa cova para lá das costas do serro do forte, se é braço que nasce mas é no Guadiana e só traz a água que àquele lhe sobra, devolvendo-a quando o rio grande dela precisa …

Sentado sobre a bicicleta e repousando o pé direito num marco de estrada, João ouvia agora, porque os amigos falam e escutam, a Mané contar um rolo infindável das suas histórias de menina-andarilho acompanhando o pai nas obras que ele dirigia por todo o país. A Mané, é que não era enguia. Era bonita e esguia, tanto, como o Arsénio era brincalhão.

 

publicado por jose murta lourenço às 15:17
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Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

 

 

 

Terna e cheia de açúcar, era a Raquel. O João conhecera-a num dos habituais passeios de fim de tarde calcorreando as ruas circulares em torno do castelo até se completar de novo o perímetro do círculo à porta da loja do senhor Dias. Os seus companheiros de passeio eram, além do irmão, o Arsénio, o Zezé e o Vítor. Dos três irmãos, o Arsénio era sem dúvida o preferido do João. Era bem mais velho mas tratavam-se como verdadeiros amigos. O Arsénio teria uns dezasseis anos e dispunha do privilégio de se passear numa mota. Numa dessas tardes, o João conheceu a Raquel. Era uma rapariga de dezasseis anos, quase a fazer dezassete, de ar alegre e cheia de vida num corpo precoce de mulher. O cabelo era liso e macio caindo-lhe em cascata sobre os ombros. Era tão louro, tão louro, que nos dias de sol encadeava quase tanto como a luz do meio-dia. O rosto, de pele branca rosada, era cheio mas alongava-se numa suave forma oval sempre que sorria. O João dissera ao Arsénio que nunca tinha visto uma rapariga tão bonita, e provavelmente, se pudesse dar a volta ao mundo, dificilmente encontraria um rosto tão perfeito e uns olhos azuis tão grandes e tão expressivos.

Nas tardes longas de Verão começaram a passear juntos. O João adorava ser arrastado pela Raquel, que puxando pela sua mão o levava pelas encostas acima, rindo indiferente aos picos das silvas, às picadelas dos tojos e das urtigas e às rasteiras das pedras escondidas.

Um dia, foi ao fim de tarde, a Raquel sentou-se numa rocha descansando da correria pela encosta acima a caminho do forte. Olhou fixamente o João, talvez de forma sedutora,  e disse-lhe:-Senta-te aqui ao pé de mim! O João, timidamente, sentou-se. Ela deu-lhe um beijo na face, segurou-lhe na mão e deixou que ela caísse, suavemente, sobre a sua coxa esquerda.

Sentiu um estremecimento quando um calor palpitante subiu do corpo da rapariga para o seu braço, e assim ficaram num silêncio perturbador enquanto o sol se escondia nos flocos de nuvens, algures no oceano, a poente.

Uma pedra, atirada por alguém, rasgou o ar e caiu bruscamente a alguns metros do local onde estavam. Levantaram-se de imediato e iniciaram o caminho de regresso descendo de novo a encosta por entre fragmentos de rocha, as silvas, os tojos, as urtigas e os arbustos rasteiros. Adeus, até breve, disseram. E separaram-se a caminho de suas casas. No dia seguinte seria sábado e o João iria com o pai à feira do Azinhal. A Raquel iria passar uns dias de férias ao Álamo, local junto a Alcoutim, mesmo à beirinha do Guadiana.

João levantara-se cedo nesse sábado. Saiu de casa a caminho do café do senhor Rodrigues. Nem queria acreditar no que lia. Olhou uma vez. Leu devagarinho. Repetiu como se quisesse convencer-se que não tinha lido o que lera. Sentiu a voz embargada e um punhal cravado na garganta furando-a de lado a lado. Na sua alma ficavam gravadas aquelas letras e elas iam aumentando de tamanho, tanto, tanto, que parecia ir explodir, rebentar, até não ser mais que um saco inerte desventrado onde as letras se acumulavam sem ordem, até caminharem, uma a uma, refazendo a frase que lera e que o atormentava: O filho do cabo fodeu a loura !

Sentiu-se pequeno de mais para resistir a semelhante impropério e malvadez. Ele, que nada de mal fizera, ele, a quem nenhum pensamento menos digno assaltara, ele que tanto gostava da Raquel, via-se agora sem vislumbrar saída e imaginava já o que viria a seguir: a mãe da Raquel apresentaria queixa por difamação; ele, como era hábito, coraria, e o misto de rubor e de silêncio seria entendido pelos adultos como prova de culpa; depois seria julgado, condenado e preso.

Fugiu espavorido para casa quando já o esperava uma intimação do pai para que comparecesse de imediato no posto da GNR. O João entrou tremendo. A amiga lançou-lhe um olhar de reconfortante súplica. Sentiu coragem. Para enfrentar o pai e a mãe da Raquel, que entretanto ordenava:-Quero o seu rapaz longe da minha filha!

 

E tudo ficou por aqui. O pai proibiu-o de sair de casa durante uma semana e o João cumpriu à risca a sentença, excepto nas fugas pelas traseiras, aberta a porta das pessoas sozinhas da avó ou porta da parelha a caminho do Sapal, onde recebia das mãos nervosas da Raquel os bilhetes de reconfortante amizade. Seis meses depois, Raquel começaria a namorar um rapaz, três ou quatro anos mais velho, com quem casaria um ano depois. Não foi feliz a princesa. Maltratada, acabou por se separar e sobreviver trabalhando horas a fio como empregada de limpeza num hotel da zona. Pobre Raquel, dizia o João, sempre que ouvia falar da rapariga mais bonita de Castro Marim, e provavelmente de todo o mundo, pelo menos do mundo então conhecido do João. Do seu mundo passou a fazer parte, algum tempo depois, a Felicidade.

O primeiro toque de campainha aí estava. João iria frequentar o terceiro ano no Externato de Vila Real de Santo António e a vila pombalina, é sabido e já foi dito, ou sê-lo-á adiante, fica a cerca de quatro quilómetros de Castro Marim, distância mais do que suficiente, quando se quer, para esquecer uma Raquel, mesmo sendo loura, terna, cheia de açúcar, e de cheiro a rosas.

publicado por jose murta lourenço às 18:51
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Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

 

 

 

 

 

 

O João gostava mesmo que o tratassem como um homem. Cedo se habituara a sair com o pai e adorava que lhe falassem como um igual, embora, naturalmente, mais pequeno. Por isso era enorme a felicidade do João. Dispensara brilhantemente das provas orais e pudera ir de férias mais cedo para Castro Marim.

João, queres ir ao baile do Rio Seco?, perguntou o pai. O João não hesitou. Respondeu logo que sim. Nem sempre gostava de ir aos bailes. Preferia por vezes ficar sozinho com os seus pequenos livros de canções. Normalmente continham letras de fados muito em voga alguns dos quais cantados nas ruas por um homem, normalmente cego, e por uma mulher, sua companheira, às vezes também cega, e que a par daqueles cantavam outros de sua lavra contando uma história de tragédia, com amor, ciúme, morte e desgraça tudo à mistura, que era de arrepiar e de partir corações, corações partidos esses que sempre entravam com uns cinco ou dez tostões, mal se partiam. O João gostava de ouvi-los, como gostava das letras dos fados e das canções dos seus pequenos livros, embora pouco entendesse de música já que nunca a tinha aprendido. Quando era mais pequeno ainda se pusera a hipótese de aprender acordeão, mas os pais não tinham dinheiro para o comprar, e depois, de que lhe serviria aprender, ou como aprenderia a tocar um instrumento, se por o não possuir, não o pudesse praticar?

Contentar-se-ia, mais tarde, com uma gaita de beiços, uma harmónica, que o João aprendeu a manejar com alguma destreza fruto sobretudo das lições do avô Francisco, e do próprio pai, um exímio mas discreto especialista. O João andava, há muito, com aquela ideia: traduzir sobre a letra da canção, numa linguagem musical que só ele entendesse os respectivos acordes, apenas porque não conhecia a linguagem da música, senão não teria necessidade de inventar nada. E essa actividade ocupava muitas das suas horas em tempo de férias, a par de outras, normalmente mais entusiasmantes embora cansativas. Naquela noite não estava no entanto para aí virado. Iria ao baile do Rio Seco e juntar-se-ia ao magote de rapazes, de jovens e até de homens, no centro da sala de baile da esplanada, e depois, tal como eles, correria na direcção da eleita convidando-a para dançar. O João era até um bom dançarino. Já ganhara mesmo uns pares de peúgas como prémio pelo desempenho. Não poderia esquecer de pedir ao pai os tradicionais vinte e cinco tostões do chocolate, já que a dança surpresa em que o
rapaz o devia ofertar à donzela, por azar, acontecia sempre que estava dançando. E não queria passar pela vergonha de ter que dizer: desculpa, esqueci-me do dinheiro no bolso do blusão!. Embora não muito agradável sempre era diferente pedir à rapariga com quem dançava que lhe devolvesse o chocolate até à próxima dança em que, por se repetir o costume, lho devolveria de novo, e definitivamente, porque neste caso havia duas e as duas não tinham três. O pai interrompeu as suas congeminações:-Acabou-se o petróleo do fogão. Vai a correr até à venda do senhor Guerreiro e traz um litro!

O João assim fez. Cumprimentou efusivamente todos os presentes. O senhor Heliodoro, e os restantes amigos do pai, logo lhe perguntaram:-Então rapaz, esses exames? Dispensei da oral, respondeu, entre um tom de aparente desinteresse, a rotina da normalidade, e uma pontinha de vaidade mal dissimulada. O João, nos festejos que se seguiram em sua honra, bebeu por sua conta uma boa dúzia de copos de vidro bem cheios, entre imperiais e cervejas. Uma hora depois, e quando o pai já se exasperava, João trouxe finalmente o petróleo. Estava ainda na fase da euforia a caminho da fase da sonolência. Limitou-se a cheirar o guisado depois de pronto. Elogiou o pai. Disse que devia estar muito saboroso, que perdera o apetite, que não gostava de dançar de barriga cheia, e que amanhã comeria a sua parte. E lá foi atrás do progenitor a caminho do carro de aluguer que os haveria de conduzir ao Rio Seco bem perto de São Bartolomeu dos Palmeirais.

Em plena fase de sonolência, o pai saiu do carro e o João ficou dormindo como um justo. Mas não era justo, até porque faltava cumprir a terceira fase para tudo ser como deve ser. João acordou estremunhado, mas de alma direita, tão direita que não entendia porque cambaleava o seu corpo. A alma, sempre mais forte, conduziu-o até ao centro da pista de dança a tempo de filar a Rosa, moça de dezoito anos bem avantajados a avaliar pelos acessórios, pedi-la para par, iniciar na perfeição dois passos de valsa, e ouvir o dito jocoso de alguém:-Olha-me para aquilo! Pequenino, ou velhaco ou dançarino! Nem lhe chega às mamas…

Almariado, caiu redondo no soalho da pista. Depois o vazio, o vazio profundo, entrecortado por um desfile de pesos, de tempos a tempos, na sua cabeça. Acordou com o rosto distante e difuso da avó Maria, ternamente debruçado sobre o seu, enquanto lhe procurava enfiar pela boca abaixo uma tigela de café bem forte e sem açúcar…

publicado por jose murta lourenço às 12:03
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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

 

 

 

 

 

Nenhum dos rapazes de Olhão sabia explicar a origem de tão estranha tradição. Mas sempre que se aproximava a época dos santos populares, os mais velhos incutiam nos mais novos, o espírito da cana verde.

Perto das onze horas, já todos se remexiam nervosos. O baile ainda não lhes dizia muito, e depois, aquela música de acordeão da Eugénia Lima, não era bem o seu género. Vamos, ou não vamos?, interrogava impaciente o Barrote, famoso pelas suas aventuras de ex-aluno do colégio de Tomar. O João, sem saber como, e por receio que o chamassem de mariquinhas ou de menino da mamã, para o caso ia dar na mesma, quando deu por ele caminhava em fila indiana na estrada de Olhão a Faro em busca da verde cana. Algum tempo depois chegaram perto de uma linha de água. Os grilos calaram-se e as rãs suspenderam, por momentos, o coaxar. Mas não foi por esse facto que o João e companheiros, seguros de si, disseram :-Isto é uma linha de água!

Eles sabiam da sua existência não porque ouvissem a água cantar no riacho, embora no silêncio da noite cantassem ora os grilos ora o riacho. Onde há canaviais há uma linha de água, disse o vedor João. E a presença das canas queria dizer, que o assalto iria começar.

Mas o que o João pensara ser, unicamente, uma espécie de aventura para conquistar canas verdes, e trazê-las de regresso, ao ombro, como troféus de caça, era bem mais complexo e aventuroso, ou no escuro os olhos confundiam o verde das canas com o verde das uvas, dos figos e das pêras, já que não houve árvore de fruto ou vinha que tenha escapado ao furor dos piratas no mar da noite, ali mesmo junto à baía de Bela Mandil, onde a mãe ainda tinha primos e primas que o João conhecia bem, já que ali bebera leite, muitas vezes acabadinho de sair das tetas das vacas leiteiras. A voracidade dos grilos passou, primeiro, pelas pêras, depois pelos figos, finalmente pelas uvas, e quando já iniciavam  a viagem de regresso com as cobiçadas canas, uma chuva de pedras de sal rasgou a noite em todas as direcções, os grilos voltaram a calar-se, as rãs respiravam agora, ofegantes, assustadas, e apenas ladrares na noite e gritos de: agarra que é ladrão ecoavam e misturavam-se, os já ditos com os acabados de dizer, e todos estes com os gritos que se iam ouvindo das vozes que perseguiam  os rapazes. O dono da quinta pelos
vistos não conhecia a tradição, ou se a conhecia, o seu amor à fruta que lhe haviam acabado de surripiar era bem mais forte que o amor aos valores ancestrais. Nem ele nem os cães que atiçou e açulou atrás dos aventureiros em fuga devem ter gostado muito do assalto à fruta.

Eram cerca de seis horas da madrugada quando o sol resolveu aparecer esperando-o um céu limpo de nuvens. Exactamente à mesma hora em que o João, de cana verde ao ombro, aparecia à porta de casa, esperando-o a mãe, de cara cinzenta e olheiras de vigília, banhada em lágrimas, sem saber o que fazer, ou sequer, sem saber pensar sobre o que fazer:-Mãe, porquê tudo isso? Eu não fiz nada de mal, e além disso, já sou um homem! E o João, nos seus ainda doze anos de idade, calma e riso mais nos olhos que no rosto, parecia firmemente convicto do que acabara de dizer.

publicado por jose murta lourenço às 09:08
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Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

 

 

 

 

 

O João era um sonhador incorrigível. De tal forma sonhava e com tanta intensidade vivia um sonho, que muitas vezes chegava a pensar ser verdade o sonho que acabara de sonhar. Frequentemente dava consigo a pensar: seria por sonhar demasiado com algo que acabava por se convencer não ser sonho um sonho, ou pelo contrário, era por desejar muito um sonho, que ele sonhava até se convencer que não era sonho o sonho que era? Há uns meses atrás, sonhara dias e dias a fio, que sabia voar como os pássaros. E quando em sonhos o João se estatelava ele sonhava no sonho que a realidade era saber voar e que o sonho havia sido a queda que dera. E tão convencido ficara, que, uma tarde, na praia do Cabeço, bem perto da praia da Alagoa, subira para o cimo de uma rocha que nas marés vazias se ia deixando lamber pela espuma das ondas e lançara-se de braços e pernas abertas sobre a pista de areia. Bateu desesperadamente os braços e as pernas. Estatelou-se, primeiro de nariz, depois de tronco e pernas, no areal, por sorte, macio. Perante a gargalhada geral de quem assistiu ao insólito espectáculo, apenas balbuciou:-Qualquer coisa deve ter falhado!

No acampamento, o João vivia outro sonho intenso. Há muito que ele sonhava ser capaz de fazer tudo o que visse alguém fazer. Era uma questão de atenção, dizia. E de repetir exactamente os gestos, e até o estilo de quem fizesse o que ele quisesse fazer, acrescentava convicto. O João nunca nadara. Nem nunca tentara aprender a nadar. Lembrava-se de ter flutuado na praia da Lota graças a uma bóia de cortiça que o irmão da Guida lhe enfiara pelos braços e pelas pernas antes de o atirar ao mar. Mas daí a saber nadar…

O tanque, o enorme tanque de água transparente e fresca, enfeitiçou o João. E depois estava calor e todos riam animados após cada mergulho de cima do telheiro da pequena casa onde sussurrava o mecanismo dentado que fazia girar a roda de alcatruzes no poço contíguo. O João encheu o peito de ar e subiu ao ponto mais alto do
telhado. Perfilou-se, braços estendidos, mãos coladas às pernas esticadas, em perfeito paralelismo. Depois o salto. O mergulho para o tanque. Um mergulho tão perfeito que parecia o de um mergulhador da China em busca de pérolas escondidas no fundo do mar. Os outros, atónitos, não escondiam a sua admiração: para quem disse que não sabia nadar! E continuaram na alegre rotina das brincadeiras de água indiferentes ao desenlace do temerário mergulho do nadador de sonhos. Quando o retiraram do tanque, por entre uma aflição desesperante, o João não conseguiu sequer balbuciar: alguma coisa deve ter falhado! Em vez disso, um ruidoso glup precedeu o lançamento de perto de meio litro de água doce da boca do João, transformada, por força de um sonho, em bica de fonte.

O relógio continuava a sua marcha lenta mas inexorável. E do meio do ano lectivo ao período de exames fora um passo. Sentia-se bem preparado e não o assustava a ideia de se submeter a exames nacionais. Sentia-se, aliás, tão bem preparado, e tinha estudado tanto, que não entendia e achava completamente injustas e injustificáveis as atitudes da dona Joaquina e de sua mãe. Só tiveste dezasseis a português no último ponto, disparou a dona Joaquina. Pôssa, acha pouco?, perguntou, a medo, o João. Ó malandro, então tu dizes um palavrão desses?, insistiu, cada vez com ar menos amigável, a directora. Eu disse pôssa; não disse porra!, justificou o João.

A mãe perdeu a cabeça.! O Gato saltou como um felino e em menos de um segundo galgou o patamar de acesso à escadaria exterior que nas traseiras do colégio unia todos os pisos desde a cave ao terraço. A perseguição havia começado. À frente, o General, a directora comandava a tropa de régua em riste. Logo atrás, a mãe do João, de sapato ameaçador rasgando o céu. De seguida, o senhor Fagundes, ex-sargento, especialidade de corneteiro, e professor de educação musical sempre que era preciso substituir um professor que por um motivo ou outro não pudesse dar a respectiva aula. Ainda um pouco mais atrás, a mãe da dona Joaquina, velhota adorável, que a perseguia por todo o lado, na secreta esperança de ser a primeira a chegar perto da vítima e num último acto de clemência interceder junto da fera. A perseguição acabara, entretanto, pelo cansaço dos perseguidores , e a fúria acabaria também, graças apenas ao tempo, prudentemente ponderado pelo João antes do seu reaparecimento. No dia seguinte tudo voltaria ao normal, e a paz na família só voltaria a ser quebrada pelo ritual da cana verde.

publicado por jose murta lourenço às 11:50
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Domingo, 15 de Janeiro de 2012

 

 

 

 

 

Até que as aulas vieram. Como chega tudo quanto está aprazado. Mais cedo ou mais tarde. Esperava-o desta vez o externato de Olhão, o do poeta João Lúcio. Este João, não o poeta, sentou-se numa das carteiras da frente e pôs-se a estudar o rosto e a figura de cada professor tentando adivinhar os traços característicos e a maneira de ser de cada um. A primeira aula esteve a cargo da dona Joaquina, professora de francês e de português, e, ao mesmo tempo, proprietária e directora do colégio. A sua primeira impressão foi a de que devia estar alerta e ser muito cuidadoso com a directora. Postada na frente dos alunos ela aparecia metamorfoseada em várias formas, todas elas assustadoras. Erecta, muito direita, ponteiro espetado para o tecto como se fosse uma lança, assemelhava-se a um guerreiro Viking perante a batalha iminente. Irritada, os olhos lançavam chispas, e os cabelos desgrenhados, fogos de santelmo, como o gigante Adamastor deveria ter feito às naus de Vasco da Gama. Quando abria a boca e gritava, o João imaginava o deus Eolo tossindo e gerando tufões por cada surto de tosse em que a enxurrada de impropérios se convertia. Mas, pouco a pouco, o João começara a descobrir o outro lado da directora, e pensava muitas vezes, que todo aquele teatro trágico-cómico não era mais do que uma defesa, as máscaras de caras ferozes com que escondia uma alma sensível e um coração frágil. Uma pistola sem balas, diziam os alunos mais velhos. E tinham razão. O João conheceu depois o professor Gonçalves, de matemática, e desde logo ficara fascinado pela sua maneira de ser e forma de ensinar. O professor Gonçalves estava sempre a rir, não um riso estridente, daqueles que fazem muito barulho; era um riso suave, de pequenos solavancos, como se ele tivesse começado a rir por dentro muito tempo antes, e aquilo que os alunos ouviam fossem já apenas os restos das gargalhadas, que por transbordarem, saltavam incontidamente para fora do seu corpo. Ele ria, não das matérias que ia ensinando, mas das imagens que elas lhe sugeriam, e que ele, quando o riso o permitisse, havia de desvendar aos alunos mais do que curiosos para descobrir onde é que estaria a piada. O estranho é que o João se habituou a ouvir falar de algarismos, números, operações, expressões numéricas, razões, raízes quadradas e por aí fora, enquanto estranhas imagens lhe bailavam na mente, como se estivesse assistindo a um hilariante filme de desenhos animados. E quando o professor se punha a exemplificar certos assuntos recorrendo a dispositivos esquisitos, estranhas varas e réguas que trazia para as aulas, e ria sempre que a experiência falhava devido a algo imprevisto, o João via nele um mago actuando num circo, e a quem a picada de uma mosca no nariz tivesse obrigado a repetir o número, vezes sem conta, até dar certo. O professor Américo era, ao mesmo tempo, professor de desenho, de ciências da natureza, e de religião e moral. Era de todos os professores, o mais austero, o mais discreto e o mais recatado, mas tinha uma grande qualidade: ensinava com a persistência de quem sabia ter de repetir dezenas de vezes a mesma matéria para que qualquer coisa ficasse na memória dos mais distraídos e dos menos dotados para os estudos. Só faltava conhecer o professor de educação física; mas, quem quisesse fazer ginástica, teria forçosamente que ser da Mocidade Portuguesa já que o mesmo professor acumulava este cargo com o de instrutor, e quem não vestisse a camisa verde e os calções castanhos, também não vestiria o equipamento branco nem calçaria as respectivas sapatilhas. O João gostava de fazer ginástica e dos longos passeios ao ar livre pelos campos e pelo pinhal, mas nunca se sentiu muito atraído pela imitação dos exércitos dos adultos, nem mesmo quando, vestido de verde e de castanho, lhe puseram suspenso do ombro um tambor e lhe disseram:-Agora és chefe de quina! Toca a marchar! Um, dois, um, dois, sentido! Alto!

Foi a meio do ano que o chefe de quina João, comandando quatro destemidos recrutas, acampou num pinhal perto de Olhão. Haviam saído bem cedo. Era preciso caminhar pela estrada enquanto o calor ainda não fosse excessivo. Além disso era necessário montar o acampamento e a maior parte dos rapazes nunca tinha tido oportunidade de erguer uma tenda de campismo, e portanto não conhecia os diversos acessórios e muito menos a sequência lógica da montagem desde o instante em que a tenda era depositada sobre o chão de areia e de folhas de pinheiro até ao momento em que se ouvisse o som característico do fecho da porta rematando o êxito do trabalho: vuuum! O João gostava daquela azáfama. Era como se todos estivessem entregues a si mesmos e dependentes apenas do seu trabalho. Faziam de tudo, desde manter as tendas e o acampamento limpos, até ao descascar das batatas e aos preparativos complementares para a confecção da sopa num enorme panelão manejado por um dos instrutores. Os tempos livres, passavam-nos a praticar os mais diferentes jogos. O João gostava particularmente do jogo da caça ao tesouro, uma espécie de enigma geral onde um encadeado de enigmas particulares ia lançando sucessivas pistas, e da sua
 resolução ou não, dependia que cada equipa se aproximasse ou se afastasse do tesouro procurado, isto, quando alguns não resolviam criar falsas pistas ou baralhar as existentes, e assim acabar tudo numa grande baralhada, sem tesouro que se descubra por amnésia do encobridor. E por entre o entusiasmo por cada nova aventura, havia ainda tempo para descobrir no pinhal coisas nunca antes vistas. O João ficara sobretudo impressionado com a cena da cobra e do coelho. Uma pequena cobra, que não teria mais de meio metro de comprimento, e menos grossa que um braço, parara, olhando fixamente um coelho. Este ficara totalmente paralisado. O João vira-lhe os músculos tensos nas patas posteriores. Parecia que a todo o momento o coelho saltaria e a cobra ficaria a ver navios. Mas algo estranho se passava com o pobre bicho. Era como se algo na sua alma o imobilizasse e o impedisse de esboçar qualquer movimento por mais simples que fosse. Num ápice a cobra enrolou o coelho asfixiando-o e ainda este se debatia num último estertor e já a bichana abria uma enorme bocarra e o engolia. A estupefacção foi tal, que todos esfregaram os olhos para que não restassem dúvidas de que era real o que tinham acabado de ver, e que não se tratava de sonho, ou melhor, de pesadelo.

publicado por jose murta lourenço às 12:30
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Um bom romance sem dúvida!
Fabuloso :D
SER MULHER Ah, ser mulher!Ser mulher é ver o mundo...
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